O espelho
Muito se é dito da boca do autor, mas nem sempre é sobre o autor.
Quando fui
preparar as malas pra viagem levei quase tudo. As roupas estavam todas dobradas,
junto às toalhas e os perfumes. Levei também uma dose de eufemismo, de vassalagem
perante os mais velhos e uma boa dose de autocontrole. Só esqueci de me levar junto.
Permaneci
em silêncio este tempo todo, estava tão atento ao mundo exterior que nem me
reconheci hoje ao me olhar pelo espelho. É muito lindo olhar pra cima e ver um
céu preenchido de estrelas, astros e cometas. É a história do universo. Mas
quando se olha pro seu interior apenas vê um grande espaço vazio que não tem
função social. No máximo existe algumas características que são totalmente
humanas.
Totalmente
humano é amar, sentir dor, sorrir, chorar. Agora guerras e torturas são gestos
desumanos. Parece que resumir isso tudo em uma frase é bem tranquilizante e
preenche aquelas lacunas éticas, porém as contradições sempre aparecem. Torturar
um nazista é errado? Guerrear contra o totalitarismo é desumano?
Quando
penso nisso não estou querendo gerar qualquer tipo de reflexão (embora talvez o
faça), mas sim digo isso para minha própria alma. Muito do que se escreve é do autor,
mas nem sempre é sobre ele. Esse texto, porém, é única e exclusivamente aquilo
que eu poderia dizer sobre mim mesmo de maneira autoral. Não é uma visão externa
do indivíduo, mas sim o oposto disso. É aquilo que, verdade ou não, representa
o que eu sou e o que penso de mim mesmo enquanto individuo único, embora não
sei se posso me apropriar do mundo que me acerca e dizer que é isso que sou.
Senti dor
involuntariamente ao cortar meu dedo, e mesmo assim a realidade sólida me
parecia muito distante. Esses pensamentos alheios me parecem muito focados e
querendo cumprir algo enquanto me sinto indiferente sobre isso tudo. Não de maneira
fútil, mas sim egoísta. Escolhendo traçar um caminho diferente pra obter experiências
diferentes. Isso sim é algo que pode ser categorizado como um traço meu, já que
ninguém mais vivenciou as coisas da mesma maneira que eu.
Por quê é
interessante isso tudo? Esse vazio que se manifesta algumas vezes, outras não.
Assim como o ceticismo, o cinismo, a fúria, o espanto, a agonia, a surpresa.
Por quê se encher de coisas metafísicas e materiais? Só pra gerar o conforto ou
para fazer um salto existencial para além da sociedade já conhecida?
E meus gostos,
preferências, aversões, medos, inseguranças e objetivos? Onde consigo encaixar
isso tudo no pensamento? Pra quê esse sentimento de posse e autoafirmação?
Sinceramente, ao dissertar sobre mim encontro apenas mais dúvidas e reconheço
que sei pouco sobre mim. Mas as pessoas ao meu redor sabem menos ainda ao me
ver apenas por atributos e personalidade.
Me sinto
muito precoce nesse mundo, onde a maioria das pessoas só atingem seus ápices
quando mais velhas, contudo sacrificam a curiosidade e a insatisfação da juventude.
Tudo bem, Odin sacrificou um olho em troca de conhecimento. Foi necessário.
Tenho pouca
idade e ainda assim quero descobrir tudo, não quero perder esse movimento quase
que intrínseco as mudanças que é a curiosidade. Já sacrifiquei algumas peças
que julgava essenciais para mim, e continuarei mergulhando no rio de maneiras diferentes...
Espero não
sentir que esse texto tenha sido em vão.

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